Na esteira da IA, salário de CTOs avança mais rápido que o de CEOs

Entre 2024 e 2025, CTOs registraram valorização salarial de 15,2%, superando o crescimento de 13,7% dos CEOs, em um movimento que reposiciona a liderança técnica como um eixo importante nas empresas.

Nos últimos anos, a valorização salarial dos Chief Technology Officers (CTOs) no Brasil tem chamado a atenção do mercado. Entre 2024 e 2025, esses profissionais registraram um aumento de 15,2% em seus salários, superando o crescimento de 13,7% dos Chief Executive Officers (CEOs). Esse fenômeno, conforme apontado por especialistas, reflete uma mudança significativa na dinâmica de liderança dentro das empresas, especialmente em um contexto onde a inteligência artificial (IA) se torna cada vez mais central nas estratégias corporativas.

O levantamento realizado pela LANDtech, parte do Talenses Group, analisou dados de consultorias de recrutamento e informações públicas, focando em executivos de tecnologia com 15 a 20 anos de experiência. O estudo revela que a IA é o principal motor de aceleração salarial no setor, destacando a importância crescente dos CTOs na tomada de decisões estratégicas.

A valorização dos CTOs, no entanto, não implica que eles tenham ultrapassado os CEOs em termos absolutos de remuneração. Embora a progressão salarial dos CTOs seja mais rápida, os CEOs ainda mantêm salários superiores. Essa situação levanta questões sobre a sustentabilidade dessa valorização e se ela representa uma tendência duradoura ou uma bolha impulsionada pelo hype da IA.

Alexandre Benedetti, diretor-geral da LANDTech, sugere que a valorização salarial dos CTOs está intimamente ligada à oferta e demanda no mercado. A escassez de líderes capazes de conduzir a agenda de IA é um fator crítico. Contudo, essa valorização não se aplica a todos os CTOs, mas sim àqueles que conseguem transformar tecnologia e inovação em resultados concretos para os negócios.

O papel do CTO evoluiu de um mero guardião da infraestrutura para um arquiteto estratégico. Hoje, esses profissionais são fundamentais na conexão entre IA, crescimento e eficiência operacional, participando ativamente das decisões mais críticas das corporações. Essa mudança de paradigma é um reflexo da crescente importância da tecnologia na geração de valor e na competitividade das empresas.

Paulo Saliby, sócio da SG Comp Partners, destaca que a valorização dos CTOs segue um padrão histórico observado em outras áreas, como finanças e vendas, onde a demanda por habilidades específicas levou a aumentos salariais significativos. No entanto, a diferença atual é a permanência dessa valorização, que reposiciona o cargo de CTO como essencial nas organizações.

Apesar da valorização, a gestão da remuneração dos CTOs no Brasil apresenta contradições. A pesquisa da LANDtech indica que 72,6% dos executivos de tecnologia valorizam bônus de retenção, mas apenas 31,1% os recebem. Essa lacuna sugere que muitas empresas ainda não implementaram estratégias eficazes para reter talentos críticos, o que pode resultar na perda desses profissionais para concorrentes mais organizados.

Benedetti aponta que a retenção deve ser tratada de forma proativa, em vez de reativa, e que as empresas precisam ter clareza sobre quais posições são críticas e quais competências devem ser preservadas. A solução não está apenas em aumentar salários, mas em criar uma arquitetura de remuneração total que inclua bônus de contratação, bônus anuais conectados a resultados e incentivos de longo prazo.

Os incentivos de longo prazo, como stock options e bônus de desempenho, são fundamentais para alinhar os interesses dos executivos com os da empresa. Saliby enfatiza que um pacote financeiro robusto não é suficiente se o ambiente de trabalho não permitir que os executivos realizem seu potencial. Profissionais de alto nível buscam desafios, autonomia e um ambiente que favoreça a inovação.

A evolução do perfil do CTO também é notável. As competências que antes eram consideradas diferenciais, como gestão de infraestrutura, agora são vistas como pré-requisitos. O que se destaca hoje são habilidades como visão de produto, entendimento de P&L e capacidade de influenciar stakeholders. Essa mudança reflete a necessidade de um CTO que não apenas compreenda a tecnologia, mas que também a utilize para impulsionar resultados de negócios.

Com 44% das empresas planejando expandir suas equipes de tecnologia em 2026, a demanda por profissionais que combinam habilidades técnicas e de negócios está crescendo rapidamente. No entanto, a capacidade de formar esses profissionais ainda é um desafio. Benedetti alerta que a solução não pode ser apenas a contratação externa, mas deve incluir o desenvolvimento interno e a retenção de talentos.

A polarização salarial entre CTOs que dominam a IA e aqueles que não possuem essas habilidades pode se intensificar. Saliby observa que a IA tende a expandir a faixa salarial dos executivos de tecnologia, mas também pode aprofundar a disparidade entre diferentes perfis de CTOs. A valorização do cargo está se tornando mais evidente, mas a capacidade de traduzir tecnologia em resultados será o critério determinante para o sucesso.

As empresas precisam se adaptar a essa nova realidade, onde a pergunta não será mais se o CTO conhece tecnologia, mas se ele consegue transformar essa tecnologia em resultados tangíveis. Essa mudança de foco representa uma das maiores transformações no mercado de lideranças de TI em décadas.

Em resumo, a valorização dos CTOs no Brasil, impulsionada pela IA, não é apenas uma questão de aumento salarial, mas uma reconfiguração do papel desses líderes nas empresas. A capacidade de conectar tecnologia e estratégia será crucial para o futuro das organizações, e aqueles que não se adaptarem a essa nova dinâmica podem ficar para trás.

A transformação do papel do CTO é um sinal claro de que a tecnologia está se tornando um elemento central nas estratégias de negócios. As empresas que reconhecerem e valorizarem essa mudança estarão melhor posicionadas para enfrentar os desafios do futuro.